Dr. André Luiz Luquini Pereira

Dr. André Luiz Luquini Pereira
Reumatologista e Clinico Geral - CRM-SP: 129.471
Assistente Técnico em perícias médicas
Estudante de doutorado na University of British Columbia - Vancouver, Canada
Assistente de Pesquisa no Arthritis Research Canada

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terça-feira, 5 de junho de 2012

FEBRE REUMÁTICA


     A febre reumática ou "reumatismo no sangue", como é conhecida popularmente, é uma doença inflamatória que pode acometer as articulações (artrite que passa de uma articulação à outra, isto é, migratória), o coração (endocardite, miocardite, pericardite, valvopatias), a pele e o tecido subcutâneo (eritema marginado), e o sistema nervoso central (coréia de Sydenham, com movimentos involuntários dos braços, pernas e/ou cabeça).
     A causa geralmente é uma resposta exagerada do sistema de defesa a uma infecção de garganta pela bactéria estreptococo, classificada como bactéria beta-hemolítica do grupo A de Lancefield, também chamada Streptococcus pyogenes, que não recebeu tratamento ou foi mal curada. A bactéria está em toda parte, especialmente nas regiões com precário saneamento, constituindo sério problema de saúde pública. É responsável por 2/3 das cirurgias cardíacas no Brasil. As manifestações da doença ativa acometem pessoas dos 3 aos 15 anos, sendo raras tanto antes dessa idade (pela imaturidade do sistema imunológico) quanto após (dificilmente um adulto tem o primeiro surto). Acomete discretamente mais meninas que meninos.
      Após 1 a 5 semanas do quadro agudo inicial, mesmo que aparentemente haja melhoras na dor de garganta, momento em que os pacientes costumam interromper erradamente o antibiótico, inicia-se, nos pacientes com predisposição genética, a fase tardia da doeça, com formação de anticorpos e aparecimento das queixas articulares. Notem: não são todas as pessoas com infecção pelo estreptococo que desenvolvem a febre reumática, só aquelas que apresentam predisposição genética.
     Nosso sistema de defesa produz anticorpos contra partes da bactéria (membrana celular, proteína M, carboidrato A) que são semelhantes a algumas partes de nosso corpo (cartilagem articular, membrana sinovial articular, músculo e valvas cardíacas), e por isso os anticorpos acabam se depositando em nossos tecidos, levando à inflamação, e podendo evoluir posteriormente com fibrose e retração tecidual (pode ser entendida como uma "cicatrização exagerada").     
     A inflamação poderá ocorrer também no coração, onde pode atacar o endocárdio (tecido que recobre internamente o coração e as valvas cardíacas), o miocárdio (músculo do coração) e o pericárdio (membrana que recobre todo o coração). Quando a inflamação é discreta, o paciente às vezes é assintomático. Nos casos em que o comprometimento é mais intenso, no entanto, poderá apresentar cansaço ao fazer esforços, taquicardia e até insuficiência cardíaca (dificuldade do coração em bombear o sangue para frente). Há risco de dano irreversível às valvas cardíacas, situação em que pode ser necessária a cirurgia para reparo ou troca da valva por outra, biológica (feita de pericárdio bovino) ou metálica.


Fonte: http://www.fcm.unicamp.br/deptos/anatomia/pecascard23.html (Fonte de domínio público)


     A inflamação poderá também chegar ao cérebro, mais especificamente aos núcleos da base (núcleo caudado / subtalâmico). Com isso, a criança passa a apresentar movimentos involuntários de braços e pernas, fraqueza muscular e labilidade emocional (torna-se chorona e briguenta). Sob estresse, os movimentos aparecem ou pioram. Durante o sono, porém, desaparece tudo.
     Como em outras doenças, prevenção é fundamental. O medo infundado do antibiótico penicilina, infelizmente tem dificultado o tratamento da doença. A temida alergia ou choque anafilático é muito rara, especialmente em crianças com menos de 12 anos de idade. Por outro lado, quando crianças e adolescentes apresentam dor e inchaço nas articulações, também precisam ser levados logo ao médico. A primeira providência é combater a bactéria, mesmo que a dor de garganta tenha passado. Todo comprometimento articular pela febre reumática é tratado com a simples aspirina, que interrompe sua evolução. Quando já atingiu o coração, utiliza-se o corticóide (geralmente prednisona ou prednisolona), um antiinflamatório mais potente. Este também interrompe, em duas a três semanas, a progressão da enfermidade, evitando as complicações. Vale ressaltar, finalmente, a importância de se prevenir outros surtos da febre reumática nas pessoas que já apresentaram a doença, para que não haja o comprometimento do coração (caso não tenha ocorrido no primeiro surto) ou a piora deste. Esta prevenção também deve ser feita, de preferência, com a penicilina benzatina a cada 3 semanas.
     Todos estes cuidados visam a melhorar a qualidade de vida de crianças e adultos com febre reumática, bem como a aumentar sua sobrevida.