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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Reportagem publicada no jornal Correio Popular de Campinas - SP, em 30/06/13.

Fibromialgia, uma doença 'invisível'


iG Paulista - 01/07/2013 05h00 |
Inaê Miranda |
igpaulista@rac.com.br


Foto: Érica Dezonne/AAN
O reumatologista André Luiz Luquini Pereira: doença não tem cura, mas pode ter efeitos
reduzidos
 
     Braços, pernas, coluna. Não há parte do corpo que não possa doer. E junto com as dores surgem sintomas como cansaço, dificuldade de concentração, ansiedade, formigamentos e dormências, depressão, tontura e alterações intestinais. É normalmente com esses relatos que os pacientes com fibromialgia chegam aos consultórios médicos. As dores podem se arrastar por meses ou anos até que o diagnóstico seja definido, já que com a ausência de lesão nos tecidos fica mais difícil detectar o problema por meio de exames. Embora ainda não tenha sido descoberta a cura, em muitos casos, os pacientes melhoram com o tempo e os sintomas retrocedem quase totalmente.


     Os médicos definem a fibromialgia como uma síndrome — conjunto de sinais e sintomas — que se manifesta com dores no corpo. No Brasil, ela atinge cerca de 3% da população. Ocorre com mais frequência em mulheres do que homens e costuma surgir entre os 30 e 55 anos. Porém, existem casos em pessoas acima desta faixa etária e também em crianças e adolescentes. Segundo o reumatologista e clínico geral da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), André Luiz Luquini Pereira, ainda não existe uma causa definida da doença, mas há algumas pistas.

     “Estudos mostram que os pacientes apresentam uma sensibilidade maior à dor do que pessoas sem a doença. É como se o cérebro das pessoas com fibromialgia interpretasse de forma exagerada os estímulos, ativando todo o sistema nervoso para fazer a pessoa sentir mais dor. É uma dor diferente, em que não há lesão no corpo, e, mesmo assim, a pessoa sente dor”, explica o reumatologista. De acordo com Pereira, a fibromialgia pode aparecer depois de eventos graves, como um trauma físico, psicológico ou infecções graves. E situações como excesso de esforço físico, exposição ao frio, estresse, ou infecções podem piorar as dores.


     Isso ocorre porque a interpretação da dor no cérebro sofre varias influências, entre elas das emoções. Sentimentos como alegria e felicidade, por exemplo, podem diminuir o desconforto da dor. A tristeza e a infelicidade podem aumentar este desconforto. “Em parte isto é explicado pelos neurotransmissores — substâncias químicas cerebrais que conectam as células nervosas —, como a serotonina e a noradrenalina, que têm papel importante na interpretação da dor e na depressão”, diz. Além de enfrentar as dores e todos os outros sintomas, o paciente enfrenta dificuldades nos relacionamentos cotidianos, porque tornam-se inseguros quanto ao desempenho pessoal, o que gera um estado crônico de revolta em relação a sua saúde.
 
Diagnóstico difícil

     Por se tratar de uma doença em que não ocorre lesão dos tecidos, como inflamação ou degeneração, os exames laboratoriais e exames de imagem não detectam nenhuma alteração, o que muitas vezes retarda o diagnóstico, segundo os especialistas. “Na prática clínica, não há como provar que a pessoa está sentindo dor crônica. A reação corporal é muito diferente do que na dor aguda. O paciente não está agitado, suando frio, gritando como acontece em um infarto ou uma cólica renal”, afirma o reumatologista. As informações do paciente e o olhar atento do médico são essenciais para se chegar à raiz do problema. “O médico pode pedir exames para excluir doenças que se apresentam de forma semelhante à fibromialgia ou ainda para detectar outros problemas que podem ocorrer junto e influenciar na sua evolução.”

Tratamento

     Apesar de ser considerada uma condição médica crônica, que pode durar por toda a vida, os sintomas podem ser tratados e o paciente pode voltar a ter qualidade de vida. Entre as medicações, os antidepressivos e neuromoduladores são os mais indicados. Eles atuam aumentando a quantidade de neurotransmissores no Sistema Nervoso Central. “Os anti-inflamatórios e os analgésicos simples não são eficazes na fibromialgia, pois não conseguem regular o cérebro para diminuir a sensação exagerada de dor, além de aumentarem o risco de complicações gastrointestinais e renais”, alerta Pereira.


     As atividades físicas também apresentam excelentes resultados no alívio das dores e dos sintomas da fibromialgia. Entre os mais indicados estão os aeróbicos no solo, como caminhadas, ou na piscina, como hidroginástica. Mas o médico alerta que os exercícios também devem ser feitos seguindo as recomendações de um profissional. Outra medida considerada eficaz é a psicoterapia cognitiva-comportamental. “Na fibromialgia, a terapia pode auxiliar o paciente a entender e interpretar melhor suas atitudes frente à dor e demais sintomas.”


     Há 10 anos, a projetista Elisabete Forti convive com a fibromialgia. Segundo ela, foram necessários cinco anos até que os especialistas dessem o diagnóstico da doença. “Sentia dores nas costas, ia ao ortopedista e ele tratava como coluna. Ia em outro médico e ele me dizia que era bursite. Cada um falava uma coisa diferente. Mas era uma dor que não tinha explicação. Doía o ombro, o pescoço, a lombar.”


     Depois de receber o diagnóstico de fibromialgia de um neurologista, Elisabete passou a tratar a doença com medicações, atividades físicas e mudança na alimentação. “No começo, quando tinha crises fortes, tomava muito remédio, alguns à base de morfina. Depois, comecei a usar alimentos mais naturais e também faço pilates. Sinto que melhorou bastante e eliminei 90% dos remédios. Às vezes, quando estou irritada, triste, ou quando muda o tempo as dores aparecem mais fortes, mas estou aprendendo a lidar com ela”, afirmou


Texto reproduzido sob autorização.
 

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